A segunda onda e o PIB Global

Armando Castelar 01/11/2020

Faz duas semanas que o FMI divulgou novas projeções para a economia mundial. Essas trazem boas notícias para o curto prazo, mostrando um quadro mais favorável de atividade econômica para 2020 do que nas edições de abril e junho desse relatório. Por outro lado, traçam um quadro mais preocupante para 2021, ao qual se soma o acirramento, nos últimos dias, da segunda onda da Covid-19 no hemisfério norte.

O Fundo agora espera que o PIB mundial contraia 4,4% este ano, 0,8 ponto percentual a menos do que previa em junho. Esse ganho está concentrado nas economias desenvolvidas: antes o FMI previa queda de 8,1%; agora, estima contração de 5,8%. Os EUA são o principal destaque, com a retração prevista para o PIB americano em 2020 cortada quase à metade, de -8,0% para -4,3%. As previsões para as outras economias ricas também melhoraram.

O quadro é mais variado no caso dos países emergentes. O Fundo agora prevê alta de 1,9% do PIB chinês e contrações menores, de 4,1%, 5,8% e 9,0%, para a Rússia, o Brasil e o México, respectivamente. No caso do Brasil, essa permanece sendo uma projeção pessimista, na minha visão. Para a Índia, o FMI piorou suas previsão, para queda do PIB de 10,3%, contra -5,5% antes, e para a África do Sul manteve a projeção anterior, de contração de 8,0%.

Duas variáveis explicam essa menor queda do PIB global este ano. Uma, a força dos estímulos monetários e fiscais, que fizeram com que a queda da atividade no segundo trimestre, apesar de recorde, ficasse aquém das previsões. Outra, que já no fim do segundo trimestre os governos começaram a relaxar as restrições à mobilidade e à prestação de serviços não essenciais, o que mitigou o impacto sobre o setor de serviços, incluindo o turismo.

Esses mesmos efeitos devem fazer o PIB do terceiro trimestre mostrar altas fortes em quase toda a parte. A China já reportou alta de 4,9% ante o terceiro trimestre de 2019, trazendo o resultado acumulado nos nove primeiros meses do ano para um crescimento de 0,7%. Amanhã teremos a divulgação do PIB dos EUA e na sexta-feira do da Área do Euro. Nos dois casos, a recuperação frente ao segundo trimestre deve ser bastante forte, ainda que não o bastante para haver crescimento na comparação interanual. Para o Brasil, a projeção mediana de mercado é de alta de 8,0% do PIB, contra o trimestre anterior, o que ainda o deixaria 4,4% abaixo do observado no terceiro trimestre de 2019. No IBRE, nossas projeções são de +7,1% e -5,1%, respectivamente.

O Fundo traça, porém, um cenário mais pessimista para o último trimestre do ano. De fato, a força com que a pandemia está voltando na Europa e nos EUA, ainda que com menor letalidade do que antes, é até certo ponto surpreendente. Na Europa e em alguns locais dos EUA, o resultado tem sido a volta de restrições à mobilidade e ao funcionamento de uma série de serviços. Na Área do Euro, a expectativa é de nova contração da atividade no quarto trimestre, ainda que em escala bem menor do que visto no primeiro semestre.

Essa segunda onda, ao adiar uma recuperação mais completa, reforça as preocupações do FMI com o médio prazo. Em quase toda parte, os governos terminarão 2020 bem mais endividados do que começaram. Por opção, ou por falta de opção, muitos acabarão com os estímulos fiscais dados este ano, o que arrefecerá a retomada da economia em 2021. Isso adiará uma solução para a forte alta do desemprego e da pobreza, resultante não apenas da queda do PIB, mas também de essa ter se concentrado muito no setor de serviços, que é o grande empregador. De fato, em toda parte ocorre o que vemos no Brasil: a paralisação de atividades que exigem contato direto entre as pessoas.

E, mais a longo prazo, haverá o desafio de lidar com o investimento que não está ocorrendo e a necessidade de re-treinar trabalhadores antes alocados a atividades que deixarão de existir, mesmo após a vacinação generalizada, que o Fundo projeta ocorrer ao longo de 2022. Isso porque o home office, a compra pela internet, o menor número de viagens a negócios e a menor ocupação dos centros urbanos são mudanças que provavelmente vieram para ficar, se não no nível atual, pelo menos em escala significativa.

O FMI é mais generalista nas propostas do que nas projeções e na identificação de problemas. Conclui-se de seu relatório, porém, que precisamos de novas políticas para lidar com esse novo não normal em que ficaremos mergulhados ainda por um tempo.



ARMANDO CASTELAR é  Pesquisador do instituto brasileiro de economia (Ibre/FGV) e professor do instituto de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro




Fonte: Correio Brasiliense