O líder comunitário que está transformando a realidade e a mentalidade dos moradores de favela no Brasil

Gabriel Kanner 23/07/2021

Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas, desponta como referência nacional na criação de negócios voltados para as comunidades


Gilson Rodrigues é um personagem antigo na minha vida. O conheci ainda na minha adolescência. Quando eu tinha 15 anos de idade, fui a Paraisópolis junto com meu pai para dar início a alguns projetos sociais. Na época, Gilson tinha 21. Ele era um jovem líder comunitário dando seus primeiros passos como empreendedor social. Junto com um grupo que se conheceu no colégio—Joildo, Juliana e Rejane—ascendeu à presidência da União dos Moradores de Paraisópolis e passou a trabalhar intensamente para transformar a realidade da segunda maior comunidade de São Paulo, onde vivem mais de 100.000 pessoas.


A transformação que ocorreu em Paraisópolis nos últimos 15 anos é nítida para qualquer um que visite a comunidade. Até ser interrompida pela pandemia, a pujança do varejo local era impressionante. Ruas lotadas, clientes ávidos por produtos e comerciantes correndo para atender o público. Diversos projetos dentro da comunidade também foram ganhando corpo com o passar dos anos. Novos prédios, atendimento médico, projetos culturais e a criação de novos negócios são alguns indícios do trabalho de Gilson, chamado por muitos de “prefeito de Paraisópolis”. 


Em 2019, Gilson decidiu levar sua metodologia de desenvolvimento de favelas para além de Paraisópolis. Ao ver um estudo publicado pela Outdoor Social, que mostrava o enorme potencial de consumo das 10 maiores favelas do Brasil—mais de R$ 7 bilhões por ano—Gilson teve a ideia de juntá-las num bloco de empreendedores sociais. Assim nasceu o G10 Favelas, que hoje mantém o “10” apenas no nome. O grupo já conta com mais de 300 favelas espalhadas por todo o Brasil.


Entre um projeto e outro, sempre acompanhei e apoiei o trabalho de Gilson e seu grupo de visionários. Mas foi neste ano de pandemia que fizemos nosso maior projeto juntos até então. O Instituto Brasil 200, em parceria com a Jovem Pan, arrecadou mais de R$ 1 milhão de reais para doar cestas básicas para moradores de comunidades. No total, 20.600 famílias que estavam passando por sérias dificuldades foram atendidas. Graças à capilaridade e capacidade de entrega do G10 Favelas, chegamos a 37 comunidades em 12 estados diferentes. A última entrega ocorreu semana passada em Aparecida-SP.


As doações de alimentos foram fundamentais nesses meses críticos de paralisação econômica, mas essas ações têm um caráter emergencial. Se quisermos de fato transformar a vida das pessoas, precisamos ir além. A visão de Gilson para a transformação das favelas é fundamentalmente uma visão de negócios. O objetivo é gerar oportunidades para que cada vez mais pessoas tenham seus negócios e ganhem dinheiro com eles. 


Seguindo essa filosofia, o G10 Favelas se tornou um hub para novos negócios dentro das comunidades. Ainda neste ano, o grupo abrirá escritórios de negócios em 8 estados diferentes. Cada escritório terá um leque de projetos, como o G10 Bank, que oferece crédito de R$ 1.000 a R$ 15.000 para a população das periferias, a Academia de Revendedoras, que capacita mulheres na área de vendas, um projeto de construção civil, que melhora as casas e fachadas da comunidade, um projeto que cria um e-commerce para empreendedores locais e o Favela Express, empresa que faz entregas de vendas online dentro das comunidades, áreas até então “invisíveis” para as empresas de logística.


Toda vez que visito Paraisópolis e vejo o crescimento do G10 Favelas sinto orgulho do trabalho que está sendo desenvolvido. O grupo liderado por Gilson tem uma energia contagiante, um apetite por transformação insaciável e uma visão empreendedora que tem o potencial de causar uma substancial mudança na qualidade de vida de milhões de brasileiros. Que o G10 ajude a impulsionar essa geração de brasileiros nascidos em comunidades, despertando nos jovens a veia empreendedora e direcionando o Brasil pro futuro que tanto sonhamos.

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